O que prende você?

 

Não era dado à leitura, mas fazia leitura corporal como ninguém. Se a preguiça o dominava e o deixava inerte? Quase sempre. Tampouco sabia do que era capaz,  mas via nele uma enorme capacidade de amar. A si próprio e aos outros. Ainda assim, as palavras não o fisgavam, com exceção de algumas poucas.

Ela sempre fora acomodada. Muitas vezes não se aguentava, saía por aí se escorando nas pessoas. Assim transferia seu próprio peso para os outros.

E não foi diferente com ele. Teve que levar o pacote todo pois meio não podia. E dentro dele o que havia? Um mundo à parte, um ser tão complexo, que, a cada momento incorporava um novo personagem. Se podia colocar mais lenha na fogueira não hesitava em fazê-lo. Mas não fazia por mal. Era movida pela adrenalina, aquilo a fazia se sentir mais viva.

A rotina lhes furtara sorrateiramente a graça e a beleza do desconhecido e do imprevisível. Então, ela mesma fazia as vezes: num mesmo dia era capaz de abrir um lindo sorriso e ser a pessoa mais doce do mundo, mas rapidamente a sirene tocava e o tsunami passava.

Porém, algo sutil os unia: uma intensa vontade de evoluir enquanto seres humanos. Sempre que podiam, mergulhavam e divagavam os dois sobre um mesmo tópico: qual o sentido da vida? Desconfiavam de que havia algo mais, algo além das baladinhas de final de semana, das cervejas com os amigos, das reuniões em família… Não que isso não fosse bom. Só que não era tudo. Tinham uma sede de não-sei-o-quê.

Filosofia? Não. Aquelas palavras de Nietche, Aristóteles, se tornaram insuficientes, pobres.  Apesar de seu legado inquestionável o que um morto poderia ensinar sobre a vida?

Lembro-me como se fosse ontem. Fomos a um Satsang (“Encontro com a Verdade”), como era chamado. Aquele nome havia me deixado intrigada, afinal o que seria a tal “Verdade”? Existiria apenas uma só verdade? Enfim, fomos até lá conferir…

Chegamos ao local e nos sentamos em umas almofadas. O salão estava cheio. Ambiente agradável, acolhedor. Estávamos esperando por um mestre espiritual. Nunca tinha topado com um antes.

Chega o mestre, senta-se lá na frente em uma poltrona e nos lança um olhar desconcertante. Não sabia dizer ao certo se era bom ou ruim só sei que era provocador. Digamos que incomodava, até certo ponto. Tirava-nos da nossa zona de conforto. No início percebi um ar de arrogância , mas depois…ah, depois…as coisas nunca mais voltariam a ser as mesmas para mim.

Não era um ritual, tampouco ensinava técnicas ou métodos para se atingir um estado de paz e bem-aventurança. Quando percebi que nada seria ensinado ali, minha mente já interferiu: “Dinheiro jogado fora”!, pensei. Mas o fato é que, depois deste pensamento, comecei a ficar muito à vontade ali e estar com aquela pessoa nos trazia uma serenidade inigualável.

Sabe, tudo que te tira um pouco da sua zona de conforto  traz uma certa insegurança, medo. Medo de perder algo em que você acredita talvez, medo de arruinar todo o seu sistema de crenças que você construiu com tanta dedicação ao longo do tempo, de fazer você pensar, agir, viver de forma diferente do que te foi ensinado desde pequeno. Medo de sair do “script’ socialmente aceitável.

Parece irônico, mas diga para alguém que seus problemas acabaram ou, que simplesmente não há problemas, e veja como esta pessoa fica totalmente perdida, sem rumo, quase que sem um senso de identidade. Logo, arruma um jeito de colocar outro no lugar.  Louco isso, né? Reclamar da vida se tornou um vício…

A sociedade, ultimamente, anda assim, presa. A conceitos, pré- conceitos, crenças…problemas. Tudo é um cavalo de batalha. Como ouço diariamente frases prontas como: A vida não é fácil ou Mato um leão por dia e mais tantas outras que são repetidas como um disco furado sem a pessoa nem sequer se dar conta. Ou se dá, não sabe trocar o disco.

Meu amigo, minha amiga, se você está matando um leão, um tigre ou sei lá que outro animal por dia dê-se conta de que algo não vai bem porque só o fato de você ter que “matar” alguma coisa dia a dia já denota que você sofre. E dependendo do porte do animal, sofre muito…e, mais cedo ou mais tarde, vai começar a cheirar mal, se é que você me entende.

Ficamos apavorados quando alguém age de forma incomum, fora da equação da nossa mente. Do que esperamos. E, quando o medo nos governa,  nos deparamos com um cenário sombrio de raiva, ódio, sofrimento. Quando deixamos que o medo nos controle o mundo se torna hostil e feio.

Aquele encontro fora revelador: aquela pessoa estava ali a fim de esclarecer um equívoco. Afinal, quem você pensa que é?  Quem é esse “você” que habita esse corpo, sem forma, sem características, sem um papel a desempenhar?

Se você se dá conta de que vai além do funcionamento corpo-mente estamos nos entendendo e fico feliz por estarmos nesse caminho juntos! Não é à toa que chegou até aqui…

Essa é a verdadeira liberdade, a derradeira Verdade.

Estamos aqui justamente para destronar sua mente e libertar seu coração.